O deserto como lugar de intimidade e prova
1º
Domingo da Quaresma
22 de
fevereiro de 2026
A Quaresma começa onde ninguém
quer ficar: no deserto. Não é palco, é silêncio. Não é aplauso, é prova. O
Espírito conduz Cristo para o ermo, não para o conforto. E ali, onde não há
distrações, o coração é revelado. O deserto é lugar de intimidade com Deus —
mas também de combate real. Não existe vida mística sem purificação. Não existe
ressurreição sem passar pela aridez. O Carmelo sempre soube disso: o ermo não é
fuga, é encontro.
✠ Evangelho (Mt 4, 1-11)
(Tradução
brasileira tradicional, edição de 1957)
Naquele tempo: Jesus foi
conduzido pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo demônio. E tendo
jejuado quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome. E aproximando-se o
tentador, disse-Lhe: Se és filho de Deus, dize que estas pedras se convertam em
pães. Ele, porém, respondendo-lhe, disse: Está escrito: não só de pão vive o
homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus. Então o demônio transportou-O
à cidade santa e O pôs sobre o pináculo do templo, e disse-Lhe: Se és filho de
Deus, lança-Te daqui abaixo. Porque está escrito: confiou aos seus anjos o
cuidado de ti, e eles te tomarão nas mãos, para que não tropeces com o teu pé
na pedra. Jesus disse-lhe: Também está escrito: não tentarás o Senho teu Deus.
De novo o demônio O transportou a um monte muito alto e Lhe mostrou todos os
reinos do mundo e a sua magnificência. E Lhe disse: tudo isto Te darei se,
prostrado, me adorares. Então Jesus disse-lhe: vai-te, Satanás, porque está
escrito: o Senhor teu Deus adorarás, e a Ele só servirás. Então o demônio deixou-O;
e eis que os anjos se aproximaram e O serviam.
🌄 Meditação Carmelita
O Espírito conduz Cristo ao
deserto. Presta atenção nisso: não foi o demônio que tomou a iniciativa. Foi o
Espírito. Deus nos leva ao ermo não para nos destruir, mas para nos purificar.
O deserto não é abandono; é estratégia divina.
No Carmelo, isso é visceral. O
profeta Elias fugiu para o Horeb e ali descobriu que Deus não estava no
terremoto nem no fogo, mas na brisa suave. O ermo é escola de escuta. Quem não
suporta silêncio, não suporta verdade.
Cristo jejua quarenta dias. Ele
entra na fome. Ele permite a fraqueza. E é justamente ali que o tentador
aparece. A tentação nunca vem quando estamos distraídos; ela vem quando estamos
decididos a buscar Deus a sério. A pedra que vira pão é a tentação de resolver
tudo no imediato. Mas o Filho responde com Escritura. Não argumenta. Não
negocia. Ele corta. Palavra contra mentira.
Aqui o Carmelo fala alto. Teresa
de Ávila dizia que a oração é “tratar de amizade com quem sabemos que nos ama”.
Mas amizade verdadeira passa por prova. Não é sentimentalismo. É fidelidade na
aridez.
O demônio cita a Escritura. Olha
o detalhe: até o inimigo usa a Bíblia. Por isso, discernimento é vital. João da
Cruz ensina que a alma precisa passar pela noite escura para ser purificada de
imagens falsas de Deus. Nem toda luz é divina. Nem toda promessa é de Deus. O
deserto arranca ilusões.
Quando o diabo oferece os reinos
do mundo, é a tentação do poder sem cruz. Resultado sem sacrifício. Glória sem
obediência. Mas Cristo escolhe o caminho estreito. Ele não veio negociar com o
mal; veio esmagá-lo na obediência.
E aqui está o ponto: o deserto
não é só geográfico. É interior. É aquele momento em que Deus parece
silencioso. Quando a oração parece seca. Quando não sentimos nada. Aí está o
ouro espiritual sendo purificado.
Teresa do Menino Jesus viveu um
deserto interior tremendo nos últimos meses de vida. Escuridão, tentação contra
a fé — e ela respondeu com abandono confiante. Pequena via? Sim. Mas com
espinha dorsal de mártir.
A Quaresma começa nos lembrando
disso: sem deserto não há intimidade. Sem combate não há santidade. O ermo é
duro, mas é ali que Deus fala ao coração.
Então, não fuja da aridez. Não
corra da prova. Se o Espírito te conduz ao deserto, é porque Ele quer te fazer
forte. O Carmelo sempre soube: o silêncio é espada. A oração é batalha. E a
vitória começa quando escolhemos adorar somente a Deus.
Por Ir. Alan Lucas de
Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância
📚 Referências
Bibliográficas
CRUZ, João da. Noite Escura.
ELIAS, Profeta. 1Rs 19.
TERESA DE ÁVILA. Livro da Vida.
TERESA DO MENINO JESUS. História de uma Alma.