Antes que Abraão existisse: o Deus que rompe o tempo

1º Domingo da Paixão
22 de março de 2026
Introdução
À medida que avançamos para os
dias densos da Paixão, a liturgia deixa de suavizar o caminho e começa a
apertar o cerco. Já não há mais espaço para meias palavras. Neste 1º Domingo da
Paixão, a Igreja nos coloca diante de um Cristo que não apenas ensina, mas se
revela de forma definitiva. No coração do Evangelho de João, o confronto se
intensifica: a verdade já foi dita, os sinais já foram dados — agora resta a
decisão. Quando Jesus declara que existe antes de Abraão, Ele rompe não só o
tempo, mas também as resistências do coração humano. E é aqui, às portas da
Cruz, que tudo se esclarece: ou se reconhece o Eterno… ou se começa a preparar
as pedras.
Evangelho Jo 8, 46-59
(Tradução
de 1957)
Naquele tempo: Disse Jesus às
turbas dos judeus: Qual de vós Me argüirá de pecado? Se Eu vos digo a verdade,
por que não credes em Mim? O que é de Deus, ouve as palavras de Deus. Por isso
vós não as ouvis, porque não sois de Deus.
Responderam então os judeus, e
disseram-Lhe: Não dizemos nós com razão que Tu és um samaritano, e que tens
demônio? Jesus respondeu: Eu não tenho demônio; mas honro o meu Pai, e vós a
Mim desonrais. E Eu não busco a minha glória; há quem tome cuidado dela, e fará
justiça. Em verdade, em verdade, vos digo: Quem guardar a minha palavra, não
verá a morte eternamente.
Disseram-Lhe, pois, os judeus:
Agora reconhecemos que estás possesso do demônio. Abraão morreu e os profetas,
e Tu dizes: Quem guardar a minha palavra, não provará a morte eternamente.
Porventura és maior do que nosso pai Abraão, que morreu? E os Profetas também
morreram. Quem pretendes Tu ser? Jesus respondeu: Se Eu Me glorifico a Mim
mesmo, não é nada a minha glória; meu Pai é que Me glorifica: aquele que vós
dizeis que é vosso Deus. Mas vós não O conheceis; Eu sim, conheço-O; e se
disser que não O conheço, serei mentiroso como vós.
Mas O conheço e guardo a sua
palavra. Abraão, vosso pai, suspirou por ver o meu dia; viu-o e ficou cheio de
gozo. Disseram-Lhe, por isso, os judeus: Tu ainda não tens cinquenta anos e
viste Abraão? Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade, vos digo que antes que
Abraão fosse feito, Eu sou. Então pegaram em pedras para Lhe atirarem; mas
Jesus encobriu-Se e saiu do Templo.
Meditação Carmelita
Aqui o Carmelo fica em silêncio…
porque quando Deus diz “EU SOU”, qualquer discurso vira ruído.
A alma carmelita sempre buscou
esse ponto: não um Deus distante, mas o Deus vivo, presente, absoluto. Teresa
de Ávila escreve com todas as letras que Deus habita no mais íntimo da alma — e
o drama não é a ausência d’Ele, mas a dispersão nossa:
“Não vos peço agora que penseis n’Ele, mas que olheis que Ele vos olha.” (Caminho de Perfeição, cap. 26)
E aqui Cristo não pede atenção…
Ele exige adesão total. Ou você entra nessa presença, ou você recua.
“Antes que Abraão existisse…” —
isso não é poesia, é ontologia pura. Cristo não “foi”, não “será”. Ele É. E
isso desmonta o nosso vício de querer encaixar Deus no relógio da nossa cabeça.
João da Cruz vai mais fundo
ainda: a alma precisa atravessar a noite escura justamente para deixar de
buscar um Deus moldado pela própria mente. Porque o Deus verdadeiro não cabe na
cabeça — Ele invade o ser:
“Para vires a saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma.” (Subida do Monte Carmelo, I, 13, 11)
Ou seja: enquanto você quiser
controlar, você não encontra. Deus não se deixa possuir — Ele se deixa receber.
E olha o detalhe brutal: os
ouvintes não estão discutindo teologia… estão pegando pedras.
Sempre foi assim. A verdade,
quando é inteira, incomoda. Não porque é fraca — mas porque é forte demais. O
homem prefere um deus manejável. Um Cristo que aconselha, mas não confronta. Um
mestre… não o EU SOU.
Mas aí vem a chave: “se alguém
guardar a minha palavra, não verá a morte.”
Guardar aqui não é decorar. É
encarnar. É deixar a Palavra descer do ouvido pro centro da alma. Teresa de
Lisieux viveu isso na simplicidade radical, quase desconcertante:
“Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar lançado ao céu.” (História de uma Alma, Ms C)
É isso. Nada de espetáculo. Só
presença, adesão, entrega.
O Carmelo não foge dessa tensão.
Ele entra nela.
Porque no fim, a pergunta continua ecoando — seca, direta, sem anestesia:
— Você vai pegar pedras… ou vai cair de joelhos?