Antes que Abraão existisse: o Deus que rompe o tempo

James Tissot (Nantes, França, 1836–1902, Chenecey–Buillon, França). Os Judeus Pegaram Pedras para Apedrejar Jesus (Les juifs prirent des pierres pour lapider Jésus), 1886–1896. Aquarela opaca sobre grafite em papel vergé cinza. Imagem: 15,6 x 21 cm. Folha: 15,6 x 21 cm. Moldura: 38,1 x 50,8 x 3,8 cm. Museu do Brooklyn, adquirido por subscrição pública, 00.159.176.(Foto: Museu do Brooklyn)

1º Domingo da Paixão
22 de março de 2026

Introdução

À medida que avançamos para os dias densos da Paixão, a liturgia deixa de suavizar o caminho e começa a apertar o cerco. Já não há mais espaço para meias palavras. Neste 1º Domingo da Paixão, a Igreja nos coloca diante de um Cristo que não apenas ensina, mas se revela de forma definitiva. No coração do Evangelho de João, o confronto se intensifica: a verdade já foi dita, os sinais já foram dados — agora resta a decisão. Quando Jesus declara que existe antes de Abraão, Ele rompe não só o tempo, mas também as resistências do coração humano. E é aqui, às portas da Cruz, que tudo se esclarece: ou se reconhece o Eterno… ou se começa a preparar as pedras.

Evangelho Jo 8, 46-59

(Tradução de 1957)

Naquele tempo: Disse Jesus às turbas dos judeus: Qual de vós Me argüirá de pecado? Se Eu vos digo a verdade, por que não credes em Mim? O que é de Deus, ouve as palavras de Deus. Por isso vós não as ouvis, porque não sois de Deus.

Responderam então os judeus, e disseram-Lhe: Não dizemos nós com razão que Tu és um samaritano, e que tens demônio? Jesus respondeu: Eu não tenho demônio; mas honro o meu Pai, e vós a Mim desonrais. E Eu não busco a minha glória; há quem tome cuidado dela, e fará justiça. Em verdade, em verdade, vos digo: Quem guardar a minha palavra, não verá a morte eternamente.

Disseram-Lhe, pois, os judeus: Agora reconhecemos que estás possesso do demônio. Abraão morreu e os profetas, e Tu dizes: Quem guardar a minha palavra, não provará a morte eternamente. Porventura és maior do que nosso pai Abraão, que morreu? E os Profetas também morreram. Quem pretendes Tu ser? Jesus respondeu: Se Eu Me glorifico a Mim mesmo, não é nada a minha glória; meu Pai é que Me glorifica: aquele que vós dizeis que é vosso Deus. Mas vós não O conheceis; Eu sim, conheço-O; e se disser que não O conheço, serei mentiroso como vós.

Mas O conheço e guardo a sua palavra. Abraão, vosso pai, suspirou por ver o meu dia; viu-o e ficou cheio de gozo. Disseram-Lhe, por isso, os judeus: Tu ainda não tens cinquenta anos e viste Abraão? Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade, vos digo que antes que Abraão fosse feito, Eu sou. Então pegaram em pedras para Lhe atirarem; mas Jesus encobriu-Se e saiu do Templo.

Meditação Carmelita

Aqui o Carmelo fica em silêncio… porque quando Deus diz “EU SOU”, qualquer discurso vira ruído.

A alma carmelita sempre buscou esse ponto: não um Deus distante, mas o Deus vivo, presente, absoluto. Teresa de Ávila escreve com todas as letras que Deus habita no mais íntimo da alma — e o drama não é a ausência d’Ele, mas a dispersão nossa:

“Não vos peço agora que penseis n’Ele, mas que olheis que Ele vos olha.” (Caminho de Perfeição, cap. 26)

E aqui Cristo não pede atenção… Ele exige adesão total. Ou você entra nessa presença, ou você recua.

“Antes que Abraão existisse…” — isso não é poesia, é ontologia pura. Cristo não “foi”, não “será”. Ele É. E isso desmonta o nosso vício de querer encaixar Deus no relógio da nossa cabeça.

João da Cruz vai mais fundo ainda: a alma precisa atravessar a noite escura justamente para deixar de buscar um Deus moldado pela própria mente. Porque o Deus verdadeiro não cabe na cabeça — Ele invade o ser:

“Para vires a saborear tudo, não queiras ter gosto em coisa alguma.” (Subida do Monte Carmelo, I, 13, 11)

Ou seja: enquanto você quiser controlar, você não encontra. Deus não se deixa possuir — Ele se deixa receber.

E olha o detalhe brutal: os ouvintes não estão discutindo teologia… estão pegando pedras.

Sempre foi assim. A verdade, quando é inteira, incomoda. Não porque é fraca — mas porque é forte demais. O homem prefere um deus manejável. Um Cristo que aconselha, mas não confronta. Um mestre… não o EU SOU.

Mas aí vem a chave: “se alguém guardar a minha palavra, não verá a morte.”

Guardar aqui não é decorar. É encarnar. É deixar a Palavra descer do ouvido pro centro da alma. Teresa de Lisieux viveu isso na simplicidade radical, quase desconcertante:

“Para mim, a oração é um impulso do coração, um simples olhar lançado ao céu.” (História de uma Alma, Ms C)

É isso. Nada de espetáculo. Só presença, adesão, entrega.

O Carmelo não foge dessa tensão. Ele entra nela.

Porque no fim, a pergunta continua ecoando — seca, direta, sem anestesia:

— Você vai pegar pedras… ou vai cair de joelhos?

Por Ir. Alan Lucas de Lima, OTC
Carmelita Secular da Antiga Observância